sábado, 28 de junho de 2008

Crítica: "O Orfanato" de Juan Antonio Bayona

Nunca escondi de ninguém a minha preferência pelo cinema Europeu, ele possui muito mais originalidade e conteúdo que o cinemão norte americano. E pensando o cinema Espanhol, muitos inegavelmente se lembram de Pedro Almodóvar com sua maneira sensual de fazer cinema. Há muito mais coisas no cinema Espanhol do que esse tema. O bom suspense recheado de conteúdo ainda existe em tempos atuais e um grande representante desse gênero apareceu ali no país das touradas. Vencedor de 7 prêmios no Goya, “O Orfanato” foi escolhido para concorrer uma vaga entre os indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro representando seu país, o longa traz tanta qualidade técnica que encanta principalmente com sua poderosa fotografia amena que dá impressão de tristeza e solidão. Produzido por Guillermo Del Toro (diretor de “O Labirinto do Fauno” e “A Espinha do Diabo”), “O Orfanato” inevitavelmente acaba sendo comparado com os dois filmes citados. O primeiro é uma aula poética, um show de arte e significados que entrou na lista dos meus filmes prediletos, o segundo é um suspense tristíssimo sobre fantasmas que coincidentemente se passa num orfanato. A maneira de filmar os 3 é basicamente a mesma e o resultado é satisfatório para ambos.

Dirigido por Juan Antonio Bayona, “O Orfanato” não é um filminho simples sobre algo sobrenatural que acontece em um casarão, há muita história por traz de tudo e a imprevisibilidade fortalece o roteiro do início até seu ato final. Nos concentrando na história, veremos em sua introdução crianças brincando num jardim e alguém fazendo um breve comentário sobre uma das crianças (uma dica inicial do que irá acontecer). Anos mais tarde, uma ex-moradora do orfanato reaparece, trata-se de Laura (Bélen Rueda do fantástico “Mar Adentro”), a função dela ali é cuidar do lugar onde morou durante a infância. Laura faz o papel daquela que zela pelas crianças e que assume responsabilidades, e embora cuide de todos, acaba por ter um carinho especial por Simon, um garoto que têm uma grave doença e é considerado por ela como um filho. A relação entre os dois é conflituosa e abre as portas para o desaparecimento de Simon construindo pouco a pouco a história. Provocando mais tensão do que sustos, o longa caminha obscuramente e os acontecimentos se arrastam reforçado por uma boa trilha sonora longe de ser marcante (como aconteceu em “O Labirinto do Fauno”) mas que acaba garantindo a atenção. Tudo é muito embaraçado e encoberto não no sentido negativo pois graças a isso nos sentimos obrigados a compreendermos tudo.

A história é bem dirigida embora contenha breves exageros que são totalmente desnecessários que no final, acaba compensado por todo o coletivo. Ousando até mesmo colocar citações de Jung, o longa abre portas para a psicologia enquanto pensarmos os acontecimentos racionalmente. Já a mediunidade que se faz presente no meio do longa, se ostenta como aquilo além do racional e fundamental dentro da proposta da história. Talvez o ponto máximo de aflição do filme se dê justamente quando a médium percorre pelo orfanato e comunica-se com aquilo que todos acreditam existir ali, é o momento de manifestação do que está longe de nossa compreensão. Cada um acredita no que quer.

O filme brinca com máscaras e todas com aparências assustadoras, e estão justamente no rosto das crianças. Enquanto as máscaras assustam, as faces de cada um dos personagens são sempre infelizes e apreensivas, são claras com o objetivo de mostrar os sentimentos reais no contexto onde estão vivendo. Já as máscaras apresentam algo misterioso, é o fator simbólico e chave do filme. O que está escondido ou encoberto? É uma dica que o filme constantemente dá com várias cenas de trancas, baús, cavernas e outros artifícios que dão à impressão de algo oculto. Símbolos quando bem trabalhados deixam qualquer filme poderoso, como o mar presente em vários longas onde alguma coisa foi levada embora (inclusive nesse “O Orfanato”). Outro ponto alto dessa história é fazer as pessoas ligadas a conto de fadas encontrarem uma semelhança de um conto com a história envolvida em “O Orfanato”. Quanto a isso, é visível a loucura de Bayona em querer mostrar que realmente existe uma alusão a seu filme com um conto pois ele persiste e entrega sem receio que conto é facilitando o entendimento. Não falarei qual é, quem assistiu sabe.

No fim do filme algumas coisas parecem mal explicadas e provavelmente o roteirista não se preocupou em querer explicar tudo e não precisava mesmo. A beleza de seus minutos finais é incontestável e sua última cena pode ser pausada, imprimida e colocada numa moldura. Mérito de sua direção artística que foi capaz de dar beleza a um único lugar onde quase todo o longa acontece. Sobre as comparações, “O Labirinto do Fauno” trata o irreal, o sonho ou o imaginário onde a jovem Ofélia cria (ou não) a sua fantasia sem falar dos ricos detalhes técnicos. “A espinha do Diabo” traz também um orfanato com fotografia semelhante ao filme de Bayona e também existem fantasmas na história. E os 3 contém um casarão. Filmes diferentes tecnicamente semelhantes e com qualidades distintas porém de beleza quase equivalentes. No entanto, “O Labirinto do Fauno” é insuperável. Finalmente, “O Orfanato” trata o medo e a solidão, traz a crença e a descrença e mostra a vida como algo facilmente violável. O filme ainda traz o saudoso Edgar Vivar (o Seu Barriga do Chaves) e o cara está bem embora apareça muito pouco. No final, o mérito mesmo é todo da protagonista, Bélen Rueda, uma aula de interpretação esquecida no Oscar 2008. “O Orfanato” não é um filme capaz de ganhar os maiores e melhores prêmios, mas ele conseguiu ressuscitar um tema no cinema tão desgastado como são os filmes sobre o sobrenatural. E também, por que não, o cinema Europeu com poder o suficiente para além de nos fazer pensar ou questionar, também consegue impressionar como poucos conseguem fazer.

NOTA 8,0

Crítica: "Awake - A Vida por um Fio" de Joby Harold

Na cama de um hospital a ponto de fazer uma cirurgia o sentimento de qualquer ser humano é de pura aflição e esperança. O cheiro do ambiente, o estado de apreensão, o silêncio, o choro e a preocupação dos incontáveis familiares que ficam do lado de fora aguardando uma notícia somatiza com a inevitável dor da angústia. Tudo acontece ali, a vida e a morte separadas por uma linha imaginária sendo responsabilizada pelas mãos de outros que estão aptos (muitas vezes não) a curar ou salvar mas nem sempre conseguem. Ao menos para mim, o ambiente de um hospital é assustador, não gosto nem mesmo de passar por perto mas na hora H, ali é a saída. Quando o pior acontece, é como se cada um precisasse procurar alguém ou algo para culpar. Bom, quanto ao filme, ele traz um jovem com cardiopatia que aguarda um coração compatível para o transplante, nada pior para uma mãe que sabe que pode perder o filho (que mãe que está preparada para isso?) ou uma recente esposa que pode ficar viúva e claro, a própria vítima que sabe que poderá não acordar mais. Há probabilidades boas de sobreviver mas a morte é uma realidade.

E já na mesa de cirurgia, o nosso protagonista, Clay (Hayden Christensen do horroroso "Jumper") se mostra preparado para encarar a situação. O que ele não contava é que seria vitima da "consciência anestésica", uma condição a qual o indivíduo quando anestesiado ainda tem percepção do que está acontecendo. Logo, Clay sente toda a dor da cirurgia e ouve toda a conversa da equipe médica. Essa é a premissa do filme que foi derrubada pela falta de competência da direção e de seu roteiro danificado.

O estreante Joby Harold é o diretor e roteirista do longa, logo, é o maior responsável pela execução desse filme que tinha tudo para ser um grande sucesso de crítica e público por seu tema valioso e interessante porém, foi desperdiçado por uma trama barata que nem o ótimo Terrence Howard (Crash-No Limite) conseguiu salvar. Jessica Alba também embarca nessa história como a boa moça e namorada de Clay e é ela quem tem o personagem mais desenvolvido na história mesmo com o tempo minúsculo o qual o filme foi inserido.

4 personagens servem de base e sustento para a história, Sam (Alba), Dr. Harper (Howard), Lilith (Lena Olin de "Casanova") e Clay. Dr. Harper é amigo de Clay e também o cirurgião responsável pelo transplante de coração do protagonista. Lilith é a mãe de Clay, uma mulher que carrega um fardo por criar o filho sozinha, ela é dominadora, é quem dita as regras e como não poderia faltar uma inépcia na história, ela reprova o relacionamento de seu filho com Sam. Os quatro no decorrer do filme sofrerão com revelações.

Um fato é perspicaz no longa. O relacionamento de Lilith com Clay, ela é uma mulher que abriga o filho como um bebê, também pela condição a qual ele vive mas há muita coisa afora. Ela está além de uma mãe protetora, é como se ela não aceitasse perder seu posto de "mulher da vida" do filho, algo refletido nos conceitos edípicos e comprovado pela rigidez e pela constante pose que a mãe exerce durante toda a história. Ela quer o controle, conhece o melhor cirurgião do país e conseguiria facilmente fazer com que ele fizesse a cirurgia em seu filho. Ela tem condições financeiras para isso graças à herança do falecido marido, seria algo feito sem maiores esforços. Acontece que Clay não quer, ele tem confiança em seu amigo mas age em controvérsia a proposta de Lilith como protesto ou busca de independência, uma libertação que procura ter naqueles que poderiam ser seus últimos dias. Tudo isso não fica exatamente claro, mas a essência existe.

Como mencionado, Clay vai para a mesa de cirurgia deixando sua mulher e mãe do lado de fora se confrontando. Na hora da anestesia, um fato curioso acontece, um homem que na verdade não era um dos membros da equipe do Dr. Harper aparece e faz a anestesia em Clay. Não preciso dizer que algo deu errado aí, é a hora que nosso protagonista vive a sensação da "consciência anestésica". Por sentir tudo que estava acontecendo sem condições de se comunicar, ele acaba mergulhando num portal para o mundo dos mortos, mais uma vez a questão do espiritismo está empregado nos filmes. O jovem fica capaz de caminhar em volta dele mesmo e assistir toda a cirurgia, inclusive pode também ver fatos que o levaram para ali e ouvir a conversa pavorosa da equipe médica, o ápice da história e também a pior parte dela. Acontece que a idéia de consciência a qual Clay estava passando é despida por uma trama que se inicia e a graça da coisa toda desaba.

Quando essa "alma" fora do corpo de Clay caminha pelo hospital e vai padecendo com as duras descobertas é que o filme vai morrendo, ele se arrasta de tal maneira que a sua curta duração parece ser enorme. O imprevisível tornou-se destrutivo no sentido de destroçar tudo que havia sido fundamentado. E é assim que o filme caminha até o final provando uma total falta de experiência para dirigir filmes e também escrevê-los. A nota não justifica a qualidade do filme, ela seria bem mais baixa mas o tema inovador e os poucos momentos apreensivos do filme elevam ela um pouco salvando de uma catástrofe. Um elenco bem fraquinho onde salva-se somente Howard e alguns momentos mais quentes com Jessica Alba que justifica seu talento em atuar sendo sexy e somente nisso. Porém, o filme vale como desculpa em ir ao cinema numa noite sem muito o que fazer.

NOTA 6,0


Crítica: "Sombras de Goya" de Milos Forman

Falar sobre gênios da arte não é algo fácil e ser fiel a sua história é ainda mais difícil. Foram poucas as grandes obras que deram certo quando tínhamos algum personagem da história tendo a vida contada. Exemplo de algo que valeu a pena foi “Amadeus”, uma obra sensacional dos anos 80 que contou com precisão um pouco da história do gênio da música Amadeus Mozart. Esse belo filme biográfico foi dirigido por Milos Forman, diretor tcheco que fundiu seu nome na indústria cinematográfica graças ao seu trabalho sobre Mozart. Forman volta agora trazendo um dos maiores pintores espanhóis, Francisco de Goya porém bem longe da qualidade de seu trabalho anterior. Nesse filme não temos somente a vida do pintor, na verdade esse parece até um coadjuvante nessa história que retrata com perfeição a inquisição espanhola e toda a atrocidade que a igreja impunha aos hereges. Indo ainda além, temos 2 episódios, o primeiro sobre essa inquisição e o segundo 15 anos depois com a França invadindo a Espanha levando a idéia da revolução Francesa.


Quem gosta de filmes de época irá se deliciar com esse longa cheio de detalhes. E quem gosta de arte também vai pois muitos dos trabalhos de Goya aparecem. Inclusive algumas cenas mostram o pintor pincelando alguns de seus quadros e fazendo gravuras. Sem sombra de dúvidas Goya é um dos maiores nomes dos artistas modernos e marcou por sua ousadia nas pinturas, ele que pintou retratos (muitos deles de reis e rainhas e no filme mostra ele trabalhando para o Rei Carlos IV e Rainha Maria Luísa) também fez denuncias em suas obras como a própria inquisição e a guerra. Algumas de suas obras têm aparência perturbadora com monstros e desastres.

O nome do filme traz “Sombras” de Goya, diferente do nome original “Goya’s Ghosts” ou “Fantasmas de Goya”. Isso relacionado ao fato de suas próprias pinturas aparecerem sombras como um “tormento” e também por seus julgamentos quanto a pessoas da época que ele dizia serem fantasmas, em um momento do filme aparece alguém pintado com o rosto borrado remetendo a essa representação.

Bem, como mencionado, o filme parece tratar mais do Irmão Lorenzo que de Goya. Lorenzo (Javier Bardem de “Onde os Fracos não têm vez”), é um homem que acaba fugindo da Espanha graças a uma condenação. A história também traz Inês (Natalie Portman de “Closer”), uma jovem que foi injustamente torturada pela igreja por conta de uma lei, o Santo Ofício. Toda a trama do filme nasce aí onde o Irmão Lorenzo e Inês se cruzam e 15 anos depois se reencontram na segunda parte do filme cada um completamente mudado por tudo que aconteceu. Nesse novo momento, Inês acaba saindo da prisão que duramente freqüentou durante a inquisição a procura da filha, essa que foi lhe tirada assim que nasceu e mandada para um orfanato. A menina chama-se Alicia e também é vivida por Natalie Portman. Diante disso tudo, onde está Goya (Stellan Skarsgård, ator suéco, de “Amistad”)? Ele está sempre presente acompanhando ambos os personagens. E o filme ganha bastante movimento nessa parte por conta da invasão que está acontecendo, Napoleão Bonaparte aparece na história conduzindo seus soldados e levando a revolução Francesa por toda a Europa.

Historicamente o filme é bem retratado com uma direção artística e uma fotografia muito apropriada, o tom amarelado semelhante à cor da luz, do iluminado (ou o iluminismo que viria a seguir) é explorado com concisão o que enriquece o filme. Esse é o ponto positivo da história. Mas se pensar ela toda em duas partes veremos a primeira não se sustentar na segunda onde tudo que aconteceu se perdendo de maneira boba comprometendo a história. Parece que muitas informações foram apertadas em poucas horas de filme e o roteiro arruinou-se com isso. Esses detalhes não fazem com que o filme fique condenado, mas um material bom o suficiente para fazer uma boa história acabou sendo desperdiçado.

NOTA 6,5

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Crítica: "Antes de Partir" de Rob Reiner

Pensando em coisas que realmente valem a pena em tempos de grande carga de estresse juntamente com o constante aumento da depressão na população reflete na possibilidade de muitos de nós sermos felizes. Ainda mais no homem moderno que já não cultiva uma amizade por conta de suas obrigações e ganância fazendo com que a idéia de ter um amigo seja quase um mito. Tudo isso porque no mundo em que nascemos em épocas de revoluções científicas, computadores, estudos, trabalhos, política, dinheiro, entre outras coisas tomam todo nosso tempo o que acaba nos afastando uns dos outros.

Seria um rumo certo num caminho mais curto. Felizmente diante de tanta irritação mantenho meu refúgio nas salas de cinema onde posso idealizar algo melhor durante 90 ou até 180 minutos e muitas vezes rodeado das pessoas que gosto. Fico feliz em dizer que ainda tenho grandes e bons amigos ao lado e quando estiver mais velho, quando olhar pra trás e ver tanto tempo que passou e assim me lembrar das coisas que realmente fazem falta, com certeza não iria lembrar de algumas aulas, discussões durante a vida, amores perdidos dentre outras coisas. Iria me lembrar sem dúvidas daquilo que me dava mais prazer e daqueles que me faziam tão bem. E tudo isso não é um paralelo da minha vida com esse filme “Antes de Partir” de Rob Reiner, trata-se apenas de uma introdução de algo que de alguma forma querendo ou não está presente na vida de todos e sinceramente não preciso dizer o que é.

O longa traz 2 homens em estado terminal, ambos tem câncer em condição avançada, um (Jack Nicholson) é o dono do hospital onde ambos estão internados, um homem grosseiro que teve uma vida confortável devido o seu enorme poder financeiro, o outro (Morgan Freeman) é um mecânico que dedicou a vida a cuidar dos filhos abrindo mão de seu grande sonho de ser um professor de história. São dois extremos que dispensam o maniqueísmo e juntos se fundem a fim de um único propósito, curtirem os últimos momentos que lhe restam. Aí que tudo começa. É claro que o filme esta longe de ser uma grande obra cinematográfica sendo que possui um roteiro não tão bom assim mas compensado pelo brilho da dupla de protagonistas.

Não é mesmo um filme para concorrer a importantes prêmios, é um filme que com sua leveza permite as pessoas se emocionarem de todas as formas pois assistir dois homens em dada situação pulando de pára-quedas e atravessando savanas na África é algo realmente bem diferente e curioso. E não é bem por aí que o filme fica, são grandes aventuras e longas viagens, eles se dirigem para lugares exóticos, participam de corrida de carros e até mesmo vão parar no topo das pirâmides do Egito, quanto fôlego em? Sem precisar ser levado a sério, o filme agrada sendo simples.

Desprendendo de importantes qualidades técnicas, o longa nos presenteia uma diversão familiar e entre amigos uma vez que, esse valor amizade está manifesto e explorado sem grandes cuidados mas está feito. Rob Reiner provavelmente não tinha grandes perspectivas quanto ao seu trabalho e o fez de uma maneira tão natural que vai conseguir agradar a grande maioria e aqueles mais emotivos, irão ficar com os olhos umedecidos.

É fato que só de olhar veremos que o filme tem tudo para ser previsível porém há muito mais ali dentro, até em pratos comuns quando feitos por pessoas diferentes sempre encontramos um tempero ou um sabor especial. Metáfora talvez infeliz mas querendo esclarecer que mesmo cheio de clichês, possui uma alma. Entre outras coisas, há uma trilha sonora simples mas não menos elegante acompanhando a vida dos personagens com muito humor, muita aventura em meio a belos lugares em locações estonteantes dentro de uma história longe de ser piegas. Sendo leve se fez bonito e soberanamente doce.


NOTA 7,0

Crítica: "O Olho do Mal" de David Moreau e Xavier Palud

Numa era onde os filmes de terror orientais estão presentes na terra do Tio Sam através de refilmagens como aconteceu com “O Chamado” e “O Grito”, agora em 2008 é notável que esse gênero vem perdendo a força. E numa tentativa de reergue-lo, nos aparece esse “O olho do Mal”, mais uma refilmagem com padrões já bem batidos e que traz um tema também já conhecido embora mal explorado, a previsão ou mediunidade.

Dirigido pela dupla David Moreau e Xavier Palud, o longa cai na mesmice e se em algum momento pretendeu assustar, falhou e falhou feio. Uma das coisas mais atraentes de assistir um filme com espíritos é justamente a possibilidade de tomar sustos, melhor ainda quando temos a companhia de alguém que morre de medo e se esquiva de assistir filmes assim. E assistindo com minha namorada, ela que é temerosa quanto a esses filmes, acabei ficando frustrado pois nessa minha tentativa perversa de deixa-la com medo uma vez que o filme estimula esse propósito me decepcionei em ver que as poucas cenas realmente assustadoras eram reles, culpa de um roteiro arruinado pela mediocridade e de uma direção incapaz de contribuir para uma melhora se apegando as tradicionais musiquinhas de impacto. Resultado disso, não vi um bom filme e minha namorada escapou da minha crueldade.

Não digo nesse primeiro parágrafo que o filme é horroroso, ele têm muitos defeitos mas possui algum carisma que me fez crer em alguns momentos que estávamos mais a beira de um dramalhão do que de um suspense ou terror como o próprio filme propunha. Mérito talvez dos bons momentos da orquestra e principalmente do doce som do violino que tirou a amarga trilha sonora do filme. A propósito o longa começa pra valer mesmo com esse agradável som que introduz a história e nos apresenta a protagonista, Sydney Wells (Jessica Alba de “Maldita Sorte”), uma jovem cega que está prestes a fazer um transplante de córnea.

Era algo totalmente novo para ela que não foi cega a vida toda, acabou tendo o problema na infância. Como imaginado, a cirurgia foi um sucesso mas a sua condição de enxergar não lhe trouxe muita paz. Ela não sabia, por questões éticas, quem era a sua doadora e depois que começou a ver “coisas”, desejou mais do que tudo saber à origem de seu doador. Essas visões que Sydney tinha eram na verdade pessoas que já estavam mortas e eram capazes de conversar com ela. Não da forma com que acontece em “O Sexto Sentido”, a questão aqui está inserida em outro contexto que paira mais na mediunidade que falarei a diante. Todos os acontecimentos, desde as primeiras visões até a busca da verdade em todas as partes do filme são emboladas demais onde até um certo relacionamento meio morno tenta, sem sucesso, acontecer.

O que é um médium? No senso comum é uma capacidade que alguém detém de falar com espíritos. O espiritismo explica que é uma comunicação entre o mundo dos mortos com o dos vivos. Lembram de algo assim no romance “Ghost”? Esse poder que Sydney passa a ter dá uma dica para o que realmente está acontecendo na história. Olhos atentos para o que é real ou não no filme. Essa questão do olho, do olhar, é muito importante e serviria como um símbolo enriquecedor se o longa tivesse mãos mais competentes para criá-lo.

Imaginei, nem sei por que, o que Bergman faria com algo assim, algo semelhante a “Cidade dos Sonhos” que não tem nada a ver com “O Olho do Mal” mas pensei na forma de filmar, com mais profundidade e muito mais detalhado. Não sei o que iria virar mas acho que daria pra fazer um caldo. No mais esse “O Olho do Mal” é mais um trabalho mediano que Jessica Alba protagoniza. Vai conseguir arrecadar o esperado nos cinemas mesmo não sendo bom.

E quem disse que filmes ruins não arrecadam dinheiro não é? Vide blockbusters da vida. Filmes de verdade não atraem tanto. “O Olho do mal” está aí para divertir e tomar algum tempinho das pessoas não negativamente mas é um filme que vive seu momento mas em muito pouco tempo será esquecido e encostado na prateleira e tomado pelo pó. Quem sabe em alguns anos não criam uma nova adaptação para essa mesma história não é?

NOTA 4,0

Crítica: "Maldita Sorte" de Mark Helfrich

Sem contar com grande criatividade, “Maldita Sorte” chega ao Brasil trazendo tudo que as comédias bobas costumam trazer entretanto essa vem com cenas bem mais apelativas envolvendo o sexo. Bom para alguns, horrível para outros. Mais horrível ainda para quem tinha alguma expectativa em ver Jessica Alba (O Quarteto Fantástico) proporcionar uma dessas cenas. O ponto mais alto do filme sem dúvidas é ela (explicarei o porque mais adiante) que costuma se prender a filmes ruins não conseguindo mostrar se é apenas mais um rosto bonito ou tem alguma qualidade como atriz. Aqui ela é Cam, uma simples garota desastrada (isso já aconteceu em algum filme) que aparece na vida de Charlie Logan (Dane Cook de “Instinto Secreto”), um homem que foi amaldiçoado na infância, e subitamente, já adulto, se apaixonou por nossa protagonista.

Como toda história de comédia romântica, o filme é totalmente limitado. Sua tentativa de ser engraçado tem algum êxito inicial mas cai aos poucos no modismo e não se ergue mais. E essa queda é justificável pois o longa parece ter cortado algumas fitas de outras comédias do gênero e colocado aqui, logo, parece que já sabemos tudo que está para acontecer.

Não há nada que realmente motive a história a ficar no mínimo interessante só que o filme não é de todo ruim pois alguns momentos de piadas, por mais apelativas que sejam, funciona. Os estereótipos também estão presentes logo de cara quando uma menina “gótica” entra em um armário com um menininho (Charlie “Chuck”) e tenta persuadi-lo a ter uma primeira experiência sexual, como o caso foi um fracasso, ela joga uma maldição onde toda mulher que ele tiver uma relação, logo em seguida a mesma encontrará o homem de sua vida deixando-o sozinho. E é em cima dessa história que o filme caminha oscilando do sensual para o vulgar. Sensual porque temos uma atriz que tem poder para isso e faz com competência o bastante para salvar o filme de um desastre.

Não costumo julgar beleza ou outros requisitos semelhantes como ingredientes capazes de salvar um filme mas se eu me deter desse detalhe não sobrará nada. Outro fato importante que merece atenção é a questão do fracasso, se não bastasse o personagem Chuck ter esse problema com as mulheres ele ainda em um dado momento do longa, sugere que sua profissão de dentista foi escolhida por um “fracasso” na tentativa de fazer medicina. E quanto a Cam, trata-se de uma garota que trabalha num aquário junto aos pinguins. E porque tinha que colocar pinguins na história? Não porque está na moda falar desses simpáticos bichinhos como aconteceu em Madagascar até Happy Feet e em outros desenhos de menor expressão e sim porque eles possuem uma relação amorosa com seus parceiros que o roteirista pensou que seria legal fazer uma analogia ao casal principal.

Dirigido por Mark Helfrich, “Maldita Sorte” vem sem conteúdo e como alternativa acaba apelando para cenas bizarras de sexo. Quem reprovar por completo tais cenas no cinema nem arrisque assistir pois tudo é gratuito e desnecessário. É um filme ruim e tentei tirar alguma coisa de bom dele, não porque sou um grande fã da Jessica (até mesmo porque não considero o trabalho dela grandioso) mas na falta de opção em uma tarde calorosa ele vale a pena. Descompromissado e nada intelectual, o filme acaba refrescando, como sorvete, literalmente.

NOTA 3,0

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Crítica: "Desejo e Reparação" de Joe Wright

Uma ótima direção é o grande destaque dessa nova e bela adaptação do romance de Ian McEwan que recentemente chegou em todas as locadoras do país. Já com 7 Indicações no Globo de Ouro, Desejo e Reparação vem recebendo elogios de todo o mundo e despontou como um grande concorrente ao Oscar 2008. Joe Wright (Orgulho e Preconceito) é o principal responsável pelo sucesso que Desejo e Reparação esta fazendo e possivelmente irá fazer ainda mais nos próximos meses com tantas premiações que certamente irá receber. Adaptar obras literárias não é algo fácil, ainda mais quando essa exige cautela e conhecimento histórico para fazer dela a mais perfeita possível sendo que épocas diferentes devem ser retratadas. Christopher Hampton conseguiu criar um roteiro em cima do livro que possibilitou o diretor transformá-lo num filme emocionante e natural.

Mesclando guerra, romance e drama num cenário impressionante com uma fotografia esplêndida, o longa acaba conseguindo agradar a todos. A história se desenrola numa paisagem rural na Inglaterra na década de 30 quando uma garota conta uma mentira acusando um homem de um crime que este não cometeu. A vida de todos em sua volta acabam por ter os destinos mudados uma vez que a vítima da história é apaixonado por sua irmã. O futuro do rapaz acaba sendo na prisão e como única alternativa de sair de lá, foi aceitar ir para a guerra que estourou anos depois com a II Guerra Mundial. O que mais chama atenção na adaptação, é a maneira como os personagens são expostos, todos os atores estão bem, destaque para a garota Briony (Saoirse Ronan) que profere a mentira quando tinha apenas 13 anos. Através de pequenas passagens, o comportamento de Briony é encarado como uma vingança de uma frustração pois ela é uma garota que não tem contato com pessoas do sexo masculino na casa perdendo a idéia e o ideal do pai. O único homem em seu contexto é o filho da governanta, Robbie (James McAvoy de “As Crônicas de Nárnia”) que assume um papel paternal com a garota e é apaixonado pela sua irmã mais velha, Cecília (Keira Knightley de “Orgulho e Preconceito”). Um sentimento de ciúmes, ódio e vingança se apossam de Briony como uma paixão edípica mal resolvida com conseqüências dolorosas para todos. Toda essa história tem o acompanhamento doce de uma trilha sonora potente e amena.

Uma dor que o tempo não apaga é a dor que Briony passa a conviver pelo resto da vida pois mais tarde vira enfermeira durante a guerra e lá escreve romances transportando sentimentos pessoais, suas angústias e arrependimentos na vida dos personagens fictícios. Algo que não se pode mudar e tampouco apagar de sua vida sofrendo com as lembranças do que fez. Em uma teoria alemã de Nietzsche a qual o filósofo chamou de “Eterno Retorno”, lembra de fato a catástrofe que ocorreu com Briony no dia que omitiu a verdade. No livro “Gaia Ciência” do filósofo, há uma passagem reflexiva em cima daquilo que está constantemente na memória e assombrando a vida quando não consegue esquecer de algo: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Enfim, o filme é uma adaptação vaidosa com um roteiro soberbo que em alguns momentos esfria mas não perde seu charme acompanhado de uma trilha sensacional, atores empenhados, fotografia fascinante e uma direção impecável.

NOTA 8,0