Nunca escondi de ninguém a minha preferência pelo cinema Europeu, ele possui muito mais originalidade e conteúdo que o cinemão norte americano. E pensando o cinema Espanhol, muitos inegavelmente se lembram de Pedro Almodóvar com sua maneira sensual de fazer cinema. Há muito mais coisas no cinema Espanhol do que esse tema. O bom suspense recheado de conteúdo ainda existe em tempos atuais e um grande representante desse gênero apareceu ali no país das touradas. Vencedor de 7 prêmios no Goya, “O Orfanato” foi escolhido para concorrer uma vaga entre os indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro representando seu país, o longa traz tanta qualidade técnica que encanta principalmente com sua poderosa fotografia amena que dá impressão de tristeza e solidão. Produzido por Guillermo Del Toro (diretor de “O Labirinto do Fauno” e “A Espinha do Diabo”), “O Orfanato” inevitavelmente acaba sendo comparado com os dois filmes citados. O primeiro é uma aula poética, um show de arte e significados que entrou na lista dos meus filmes prediletos, o segundo é um suspense tristíssimo sobre fantasmas que coincidentemente se passa num orfanato. A maneira de filmar os 3 é basicamente a mesma e o resultado é satisfatório para ambos.O filme brinca com máscaras e todas com aparências assustadoras, e estão justamente no rosto das crianças. Enquanto as máscaras assustam, as faces de cada um dos personagens são sempre infelizes e apreensivas, são claras com o objetivo de mostrar os sentimentos reais no contexto onde estão vivendo. Já as máscaras apresentam algo misterioso, é o fator simbólico e chave do filme. O que está escondido ou encoberto? É uma dica que o filme constantemente dá com várias cenas de trancas, baús, cavernas e outros artifícios que dão à impressão de algo oculto. Símbolos quando bem trabalhados deixam qualquer filme poderoso, como o mar presente em vários longas onde alguma coisa foi levada embora (inclusive nesse “O Orfanato”). Outro ponto alto dessa história é fazer as pessoas ligadas a conto de fadas encontrarem uma semelhança de um conto com a história envolvida em “O Orfanato”. Quanto a isso, é visível a loucura de Bayona em querer mostrar que realmente existe uma alusão a seu filme com um conto pois ele persiste e entrega sem receio que conto é facilitando o entendimento. Não falarei qual é, quem assistiu sabe.
No fim do filme algumas coisas parecem mal explicadas e provavelmente o roteirista não se preocupou em querer explicar tudo e não precisava mesmo. A beleza de seus minutos finais é incontestável e sua última cena pode ser pausada, imprimida e colocada numa moldura. Mérito de sua direção artística que foi capaz de dar beleza a um único lugar onde quase todo o longa acontece. Sobre as comparações, “O Labirinto do Fauno” trata o irreal, o sonho ou o imaginário onde a jovem Ofélia cria (ou não) a sua fantasia sem falar dos ricos detalhes técnicos. “A espinha do Diabo” traz também um orfanato com fotografia semelhante ao filme de Bayona e também existem fantasmas na história. E os 3 contém um casarão. Filmes diferentes tecnicamente semelhantes e com qualidades distintas porém de beleza quase equivalentes. No entanto, “O Labirinto do Fauno” é insuperável. Finalmente, “O Orfanato” trata o medo e a solidão, traz a crença e a descrença e mostra a vida como algo facilmente violável. O filme ainda traz o saudoso Edgar Vivar (o Seu Barriga do Chaves) e o cara está bem embora apareça muito pouco. No final, o mérito mesmo é todo da protagonista, Bélen Rueda, uma aula de interpretação esquecida no Oscar 2008. “O Orfanato” não é um filme capaz de ganhar os maiores e melhores prêmios, mas ele conseguiu ressuscitar um tema no cinema tão desgastado como são os filmes sobre o sobrenatural. E também, por que não, o cinema Europeu com poder o suficiente para além de nos fazer pensar ou questionar, também consegue impressionar como poucos conseguem fazer.






